domingo, 9 de fevereiro de 2014

Encantado



Dia desses entrei em uma loja e senti um cheiro muito familiar. Forcei um pouco a memória para lembrar de onde conhecia aquele aroma gostoso e foi quando me recordei de dezembro de 2008, quando pisei no navio pela primeira vez. Era o mesmo cheiro de casa recém-limpa, aquele frescor de produtos de limpeza no tapete contrastando com o cheiro do calor do lado de fora – sim, o calor tem cheiro, e não é bom.

Eu estava um pouco mais emotivo com minha passagem pelo navio nesse dia porque, horas antes, eu tinha visto as primeiras fotos da Cristina. Para quem não sabe (e ninguém vai saber mesmo), Cristina é a filha da minha amiga chinesa com meu primeiro colega de cabine, que conheci nesse mesmo dezembro de 2008. Eu era o novato em um navio relativamente grande e os dois já estava lá há mais tempo. Yujue, a chinesa – com esse nome é um pouco óbvio que fosse -, tinha apenas alguns meses na empresa, mas já dominava todo o trabalho, como se espera de alguém que vem da terra dos pandas. Alex, meu colega de cabine vindo da Romênia, já trabalhava “nos barcos” há anos. Conhecia tudo muito bem e foi o responsável por quase todos os meus treinamentos, já que era uma espécie de chefe do meu setor, pois era quem cuidava do laboratório onde revelávamos as fotos.

Quando eu os conheci, eles ainda não namoravam, mas já eram bem amigos, e eu me enfiei na turma junto a outras pessoas do setor. Nós fazíamos quase tudo juntos, desde almoços até saídas nos portos e os lanchinhos da meia-noite, antes de ir dormir.

Fui muito feliz em encontrar, logo de cara, pessoas tão receptivas e amigáveis. Em outros navios que passei os fotógrafos eram bem mais fechados, e não se enturmavam tanto. O que dificultava muito o trabalho, se pensar que eu passava a maior parte do tempo com a minha equipe.

Ficamos tão amigos que nossa relação não esfriou nem quando, por decisões da companhia, eu acabei sendo transferido, no começo de fevereiro, para um outro navio, em outra rota. Nunca mais encontrei os dois, mas graças ao Skype, Facebook e similares, ainda mantemos um contato, mesmo que bem mais escasso do que queríamos.

Todas as lembranças boas que tenho do pouco mais de um mês que passei junto à Yujue e ao Alex são sempre mais fortes que os momentos chatos que passei naquele navio - adaptações à rotina não são fáceis e sempre geram uns momentos críticos. E esses momentos bons que me recordo ainda são tão presentes na minha vida que me fazem ficar emocionado quando abro o meu e-mail e vejo as fotos daquela garotinha meio chinesa, meio romena, muito querida por lá e por aqui também!

E é bem assim que gosto de levar a minha vida, colocando os momentos bons na frente da fila e deixando os momentos ruins mais para trás. Quando uma lembrança mais chata vem trato logo de me lembrar daquele dia que encontramos a barraquinha de sucos na Colômbia e viramos fãs de uma fruta desconhecida, porém deliciosa. 


[para ouvir depois de ler: Booka Shade - The many rivers]

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