quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Cara do mundo



Dia desses, por uma casualidade da vida, dessas coisas que acontecem e a gente não entende, eu descobri que trabalho com a irmã de um colega de sala da faculdade. A primeira vez que a vi fiquei com aquela sensação de "esse rosto não me é estranho", mas nem dei muita bola porque minha percepção ficou meio avariada depois dos anos no navio, vendo muita gente nova todos os dias. Até que, conversando um dia, meio que caiu a ficha, liguei outros sinais e eles também batiam. Irmã, batata! 

Passados alguns dias, ou semanas, talvez, essa menina me diz que comentou com o irmão de mim, e ele disse que se lembrava, e comentou que eu era uma pessoa muito dedicada e muito comprometida com os estudos. 

Fiquei pensando nessa fala e no que ela representa. Eu fui sim uma pessoa dedicada, comprometida e responsável com meus estudos durante a faculdade, mas acho que o muito não pode ser usado nesse caso. Jamais virei noites e noites estudando, nunca me sacrifiquei para fazer os trabalhos e sempre preferi aprender a ter uma nota altíssima. E essa não foi a primeira, de fato, a primeira vez que eu ouvi um comentário verdadeiro, porém exagerado, sobre mim. 

Essa história me lembrou de uma vez que precisei criar uma metáfora sobre mim mesmo. Eu deveria representar a forma como acreditava que as pessoas me viam e a forma como realmente sou. No começo pensei que seria fácil, mas vi que era uma tarefa mais difícil do que parecia. De todas as ideias que tive, acabei executando uma que, hoje em dia, não acho tão interessante mais. Lembro, contudo, que uma delas ilustra muito bem o caso que contei. 

A ideia consistia em criar duas páginas de palavras cruzadas, iguais àquelas das revistas que compramos por dois reais e pouco nas bancas de jornal. Uma estaria preenchida totalmente, e na outra alguns espaços estariam em branco. A primeira representa como penso que as pessoas me veem, e a segunda representa como eu realmente sou.

O pulo do gato nessa história, nessa metáfora, é que a primeira página está completa, sim, mas não está correta! Alguns espaços foram completados de forma errada, de maneira aleatória, com qualquer letra, só para deixar tudo preenchido e, visualmente, mais bonito. 

E é aqui que eu quero chegar, depois de dar tantas voltas. A página com a palavra cruzada cheia é muito mais atrativa do que a com algumas lacunas. Se você precisasse apontar a melhor, seguramente a escolheria, mesmo que ela estivesse completa, porém incorreta. Porque você não sabe que ela está errada! Assim como responder que eu sou muito competente, muito dedicado, pode não ser a resposta mais correta para a pergunta "e como ele é?", em alguns casos. 

Toda a minha vida eu sempre busquei mostrar a página completa, porque um dos meus objetivos sempre foi resolver tudo o que me proponho, ou tudo que a mim é proposto. Só que essa é uma falsa ideia e um objetivo utópico porque, na maior parte das vezes, nós nunca estamos preparados para o que enfrentamos. É dando de cara com a vida que a gente aprende. É ali, "vivendo e aprendendo a jogar", que encontramos todas as respostas para completar a palavra cruzada.

E depois viramos a página e começamos um novo desafio!


[para ouvir depois de ler: Ney Matogrosso - A ilusão da casa]

Nenhum comentário: