quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Manequins


Dia desses, arrumando meu guarda-roupas, encontrei meus livros e fichas de RPG. Graças ao meu cunhado, em um passado bem distante, tomei conhecimento do que vinha a ser esse jogo, suas regras, instruções, etc. Quem foi/é minimamente nerd sabe como funciona, mas grosso modo é um jogo onde você "encarna" uma personagem, que como nós tem alguns atributos, habilidades, e vai "vivendo" as histórias junto com ela. É um jogo para quem gosta de imaginar, porque não há nem uma dica, uma carta, uma ilustração. A personagem é criada na sua cabeça, e é lá que as ações se passam.

No meio dos papéis, livros de regras, rascunhos de histórias, encontrei a ficha da minha última personagem. Eu era um elfo, figura mitológica das florestas (Senhos dos Anéis feelings) e era bardo por profissão. Bardos seriam uma espécie de bobo da corte com funções mais sérias e talentos artísticos mais versáteis, como canto, dança e uma dose mais elevada de carisma. Provavelmente escolhi ter essa profissão porque não tenho nenhum desses atributos, então pelo menos em um reino da fantasia eu poderia ser alguém que sabe tocar algum instrumento.

Relendo a ficha me lembrei da última história que joguei junto com meus primos. Na trama tínhamos que ir até uma cidade, pegar um item mágico em algum lugar e retornar para onde começamos, entregar o tal item a quem nos tinha contratado e receber o dinheiro. Demoraríamos uns quatro, cinco dias. E, claro, no meio do caminho aconteceram coisas, como lobos nos atacando, portas trancadas que precisaram ser atravessadas, armadilhas e toda a sorte de situações inesperadas.

Acho que o sucesso desse tipo de jogo vem do fato de que, metaforicamente, ele faz uma referência bem forte com nossa vida. Estamos sempre indo e vindo de lugares para conseguir alguma coisa. E nesses deslocamentos nos deparamos com diversos "acontecimentos", que atrasam ou não nosso objetivo.

O mais interessante que foi lembrei que não terminamos essa trama, pelo simples motivo que fomos todos mortos. Em um ponto do caminho de volta nos deparamos com algumas outras pessoas na estrada. Quem criou a história, chamada mestre do jogo, colocou alguns mercenários no caminho. Para passar, teríamos unicamente que pagar uma quantia a eles, ou tentar convencê-los a não cobrar, usando nossos atributos de persuasão, carisma e afins. Entretanto, ao nos depararmos com essas pessoas, não pensamos duas vezes e os atacamos. Por azar dos dados fomos, um a um, sendo mortos.

Me peguei pensando sobre esse episódio, e relembrando dessa semelhança que o RPG tem com a nossa vida. Quantas vezes, durante alguma tarefa, durante algum evento de nossas vidas, não falhamos simplesmente porque não seguimos o que alguém imaginou que faríamos. Algumas vezes a ação que devíamos tomar está clara naquele contexto, mas preferimos nos aventurar por outros caminhos que, talvez, não dão certo. Pagamos um preço quando tentamos nos aventurar por outros caminhos que, muitas vezes, não valem a cara quebrada.

Quando isso me acontece, quando falho com o que era óbvio naquele momento e eu não o fiz, fico com a sensação de que a vida queria mesmo é que fôssemos manequins, e realizássemos sempre o que ela escolheu e da forma como escolheu, mesmo que seja ficar quieto, parado, imóvel...


[para ver/ouvir depois de ler: Kraftwerk - Schaufensterpuppen]

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