terça-feira, 30 de agosto de 2011

"Me perdi, Georgette"



Dia desses resolvi fazer um doce que já perdi a conta de quantas vezes o fiz. Carinhosamente o chamamos de "Bicho de pé", mas na verdade é um brigadeiro rosa, feito com morango em pó no lugar do chocolate. Isso mesmo, aquele morango em pó que misturávamos ao leite e tomávamos nas manhãs dos anos 80, assistindo aos desenhos do programa da Vovó Mafalda (eu fazia isso, se vocês não faziam, azar o de vocês).

Misturei o leite condensado, a manteiga e as duas colheres cheias do pó numa vasilha e levei ao microondas. Normalmente sou muito atento quando estou cozinhando, fico de olho para não queimar ou não passar do ponto que eu gosto. Meu pão de queijo, por exemplo, é um pouco menos corado do que o de costume. Meu bolo nunca fica dourado demais. Prefiro assim, tenho a impressão de que o sabor fica mais acentuado do que quando eles estão bem assados.

Acontece que esse dia o doce entornou. Geralmente ele sobe até à borda da vasilha, por isso sempre utilizo a mais alta que encontro no armário. Algumas vezes fiquei com "medinho" que entornasse e abri a porta no meio do processo. O doce murchava e eu religava o aparelho. Mas esse dia me esqueci do doce, me esqueci do forno, de repente me esqueci da vida e ele subiu. Subiu tanto que, mesmo sem espaço, ele continuou subindo, até entornar. Só fui perceber porque, durante os cinco minutos que ele fica no microondas, é bom abrir a cada minuto e dar uma mexida. O doce fica bem mais uniforme quando faço isso.

Quando dei por mim, o prato do microondas estava todo rosa. Ok, totalmente rosa é um exagero, mas tinha entornado bastante. E eu sem entender o motivo, olhando para o doce, para a colher na minha mão, para o nada, tentando encontrar um motivo, uma explicação que fosse para aquilo. Eu sempre soube que o doce subia no forno, porque é um processo de cozimento, mas acreditava que ele respeitasse os limites da vasilha. Por um momento, ali naquela hora, quase chorei pelo leite doce derramado.

Me peguei pensando nessas ironias do destino, quando falhamos em coisas que já estamos mais que acostumados a fazer. E me lembrei desse vídeo da Daniele Hypólito. Na etapa de Glasgow de ginástica, em 2002, ela "se perde" na última passada da final do solo, e não executa o movimento que deveria. Aliás, não executa movimento algum. Quando termina a prova, ela tenta explicar para sua então técnica, Georgette Vidor, aquela falha. E não diz outra coisa se não "me perdi, Georgette", "eu não sabia onde estava", enquanto Georgette bradava "não sabia onde estava?", "você tinha acertado tudo!", e coisas do tipo.

Sempre acreditei nas experimentações, quando há possibilidade para que elas existam. Testar uma receita nova de bolo quando você não espera uma visita, testar um caminho novo para voltar para casa quando não se tem hora marcada. Testar até um novo fornecedor no trabalho quando o tempo não está contado, ou quando aquela demanda não é a mais importante do trimestre. E não tenho o menor problema quando, por uma casualidade, algumas dessas tentativas falham. Porque havia ali a margem de manobra, a possibilidade de refazer, de procurar o erro. E essas falhas podem ser interessantes porque, por elas, encontramos mais facilmente possíveis pontos com erros que precisam ser consertados.

Mas me é muito doloroso quando percebo que falhei em alguma coisa que faço até de olhos fechados. Porque já se conhece o processo, já se sabe das etapas, do que vem depois. Tem-se, na cabeça, a sequência lógica do "isso vem depois daquilo, que vem depois de...", e nada mais é novidade, nem mesmo o resultado.

Tem um trecho do vídeo que a Georgette diz: "você não foi capaz de fazer uma dupla pirueta, Dani?", com um espanto assustador. Sei exatamente o que a Daniele passou naquele dia, naquela prova, porque provavelmente a última diagonal da série, o último movimento, estava em sua rotina de treinamento e era repetido à exaustão. Para as duas, a tal dupla pirueta que a ginasta não fez era a coisa mais trivial dentro daquela série. Era como o meu brigadeiro que entornou. O doce mais comum do meu caderno de receitas me dando uma trabalheira inesperada que só valeu a pena, naquele dia, porque o resto que sobrou estava muito gostoso. Como ele sempre fica, com ou sem imprevistos. "Dos males, o menor", como se dizem por aí. E como deveríamos sempre nos lembrar!


[para ouvir depois de ler: Björk - Human Behavior]

5 comentários:

Lívia Frederico disse...

Essas coisas acontecem pra não deixar a gente acomodar, acho. Se sempre tudo saísse do jeito que a gente espera porque sempre fazemos do mesmo jeito, ia ser meio chato.

Viajando só mais um pouquinho, é o jeito da vida de nos dizer que todo controle é ilusão, até nas menores coisas...


(e a Georgette bem pode se juntar à Cláudia e a Berenice nos bordões, hein? hehe)

Dan disse...

É bom se surpreender consigo mesmo! Isso pode render resultados não só negativos como positivos também!

ps:Não conhecia esse doce! Dia desses ainda faço!

Flavimar Diniz disse...

Lívia, mas eu já falo isso, até quando me perco no sentido figurado.

Dan, é ótimo, e não é tão doce quanto parece. Eu recomendo fazer as bolinhas e passar no coco, porque dá um toque legal.

Diego disse...

Gata.. first of all... eu SEMPRE quis fazer essa experimentacao de trocar o chocolate em po por alguma outra coisa... mas sempre tive preguica naum so do trabalho, mas tb de ter esse trabalho, pro negocio ficar uoohhh... imagina um doce com suco de manga em po?? ou maracuja??? acho dignooo!!! ainda vou tentar esse bafo... e o doce transborda horrores se vc naum prestar atencao mesmo... mas sei lah, das ultimas vezes que eu fiz brigadeiro, eu prefiri fazer na panela... acho que tem um gosto melhor.. non sei se eh impressao minha... rsrs.. e a referencia ginastica foi arrasadora!! ainda estavamos comentando sobre isso ainda ha pouco #georgettedeusa #georgetteprapresidente #georgettecomentaristadeginasticanaNBCNOW!

PS> as trilhas sonoras estao arrasantes... no final do ano a sra tem que lancar uma coletanea com a trilha de todos os seus posts... tipo criar um selo que nem o Putumayo... acho close!

Flavimar Diniz disse...

Diego, com maracujá ficaria quase um mousse. Eu faço um com creme de leite e leite condensado que fica ótimo. Mas é uma ideia misturar o suco de manga em pó, daqueles já adoçados. Testaremos quando você estiver aqui. E Georgette de comentarista já! Nada de panos quentes quando a ginasta cair. Ela se esborrachou, já solta um "acabou para ela, não dá mais, some!"