quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ele não gostou


Quando eu dividia cabine com Diego costumávamos dar uma geral na "casa" sempre que possível. Aspirar os carpetes, ajeitar a escrivaninha, arrumar os livros, cds, dvds na estante. Criar um ambiente habitável e que tivesse alguma relação conosco, que parecesse mesmo um lar.

Em uma das vezes lembro que resolvemos apelar um pouco mais na faxina, que acabamos apelidando de "Veja Limpeza Pesada". Esfregamos as paredes, trocamos a cortina do banheiro, aspiramos profundamente cada cantinho e, dentre uma movimentação e outra, encontramos tanta coisa inútil que antigos moradores tinham deixado e que só serviam para acumular poeira. Embaixo da cama, por exemplo, tinha uma cadeira com toques gregos desmontada, um pedaço de suporte de guarda-roupa para pendurar roupas e várias caixas de papelão desmontadas.

Mas o item mais inusitado que encontrei nessa limpeza foi uma bíblia, deixada em cima do armário. Não que bíblias não pudessem ser encontradas, afinal, há católicos em todo mundo, mas essa era diferente pois era uma edição do novo testamento bilíngue inglês-turco.

Poderia dar aqui vários motivos que me levaram a guardá-la no meio das minhas coisas, depois na minha mala quando terminou meu contrato e junto com meus outros livros quando cheguei em casa. Poderia dizer que é porque tenho um ascendente câncer que não me deixa jogar nada fora; porque em algum ponto da minha genealogia acabo encontrando antepassados turcos; por ter me apaixonado pelo país e querer aprender o idioma; e por aí vai.

Mas talvez o motivo que me levou a pegá-la para mim foi que, logo na primeira página, alguém deixou uma dedicatória para o destinatário daquele livro. E estava escrito assim:

"It's something I thought you'll like.
It's English-Turkish. Be in touch.
Take care. Love... Be good!"

Ao dar essa bíblia de presente, a pessoa que assinou a mensagem (não consigo identificar se o nome é Bavale ou Bajale) tinha ali um pensamento de que o destinatário gostaria daquele presente. Mas o alto de um armário em um navio foi onde a pessoa escolheu deixá-lo, e não esquece-lo, já que ali seria o mais inóspito lugar para guardar qualquer coisa. E não há desculpa para esse ato, porque uma bíblia pesando menos de quinhentos gramas pode ser facilmente colocada em qualquer mala, em qualquer bolsa, ou mesmo levada na mão junto aos documentos. Não era uma Venus de Milo de meia tonelada, não era uma coluna grega de mármore. Era um livro de umas setecentas páginas que, fisicamente, não pesava quase nada, mas que tinha um valor sentimental incalculável, do tipo que não há balança que registre. Mesmo que a pessoa não fosse católica, não creio que seja uma ofensa transitar por aí com o livro sagrado de uma religião que não é a sua.

Desde a primeira vez que li essa dedicatória sempre penso em quantas vezes não deixamos de lado um presente, um sentimento, uma boa intenção que nos foi dada. Simplesmente guardamos no alto de um armário, deixamos no fundo de uma gaveta e não levamos em consideração o trabalho, o empenho e todo o sentimento que foram colocados naquele "mimo".

Saiba então, querido turco, que essa bíblica não era para mim, mas gostei muito de tê-la encontrado. E tentarei cuidar de mim mesmo e ser bom, sempre...


[Para ouvir depois de ler: I'm not your guy - Projekt Gestalten]

3 comentários:

Diego disse...

Muito bafo!! Eu tb naum jogo nada fora! Principalmente quando eh um presentcheenho que alguem me deu! Tenho uma caixa com todos os tipos de dedicatorias, cartoes e outros mimos... aonde, inclusive, eu guardo a sua notinha digna que a sra me enviou junto com o EP de army of me, da bjork.

Acho de uma insensibilidade imensa alguem descartar algo que foi lhe dado de presente com as melhores das intencoes, por mais que talvez naum combine com a pessoa.

E as nossas limpezas na cabine arrasavam!!! Veja limpeza pesada chorando!!! Aquele banco grego era o erro!!! Direto pro incinerador do navio!

Bjooon

PS: arrasando na trilha sonora que, tipo, ninguem vai conseguir ouvir depois pq a musica ainda naum foi lancada! rsrsrs... e Projekt Gestalten eh com K... eh alemao non ingles!! da licenca!!!

Flavimar Diniz disse...

Diego, eu também gosto de guardar alguma coisa que me lembre um evento maior, tipo a etiqueta daquela camiseta que comprei naquela loja em Cádiz. Porque tem todo o significado da primeira compra, da primeira loja, primeira cidade... P.S.: Alterei o nome do projeto. E ótimo que ninguém consiga ouvir as músicas, todos vão se morder para saber de onde vem esse Projekt Gestalten! E essa música casou com minha ideia do post, das pessoas jogarem fora nossos empenhos, se relevando não ser "nossas".

Renata Cristina disse...

Eu me identifico com o turco que deu a bíblia de presente. Espero que, em minha vida, eu também encontre um flavimar, que pegue a minha bíblia de cima do armário e a guarde com cuidado...