quarta-feira, 1 de junho de 2011

Mentes fervilhantes

Vida de inventor não é nada fácil, mas dá uma enorme satisfação ver o produto competindo no mercado. Para isso é preciso encarar algumas dificuldades, que incluem validar a  ideia e conseguir um investidor.


Suponhamos que você, em uma manhã qualquer, toma um café em uma bela xícara de porcelana, enquanto lê esta revista. Aí o telefone toca e, só por alguns instantes, você interrompe a leitura. Uma revista, um telefone, a porcelana... Não há nada em comum entre esses três objetos, exceto o fato de que, em algum momento da história da humanidade, alguém teve a ideia brilhante de criá-los, não sem pesquisas, empenho e, provavelmente, testes que não deram certo, até que a iniciativa se transformasse em um produto sem nem imaginarmos de onde veio.

A verdade é que a tecnologia e, com ela, as invenções foram transformando nossas vidas. E há diversos brasileiros que figuram nas listas dos maiores inventores do mundo. Santos Dumont é, sem dúvida, o mais famoso, por encurtar distâncias com seu dirigível e o avião e por deixar-nos por dentro do horário em qualquer lugar que estivermos, ao popularizar o relógio de pulso. Outros produtos que usamos diariamente também nasceram de ideias de brasileiros. O copo “lagoinha” (aquele com listras verticais, canelado) foi inventado pelo  designer Nadir Figueiredo, em 1947; o escorredor de arroz pela dentista Therezinha Zorowich, em 1959; com a paternidade polêmica, mas por fim desenvolvida por uma equipe de engenheiros, as urnas eletrônicas, no fim da década de 1980, mudaram a rotina das eleições no Brasil e fazem sucesso em outros países. 

Regras

Mas, afinal de contas, o que pode ser considerado um invento? Qualquer pessoa com uma ideia incrível pode produzir um protótipo e tentar uma patente? De acordo com Daniela Mazzei, gerente e técnica em patentes da Associação Nacional dos Inventores (ANI), qualquer produto novo, ou qualquer aperfeiçoamento de um produto já existente, pode ser considerado uma invenção. Ela destaca três requisitos que devem ser seguidos pelos inventores para determinar se há possibilidade de o invento receber uma patente: inovação, ineditismo e possibilidade de produção 
em larga escala. 

Desde 1992, a ANI auxilia os inventores nos campos de criação, aperfeiçoamento e produção dos inventos. Daniela lembra que Carlos Mazzei, fundador da entidade, trabalhava com inventos e percebeu a grande falta de informação na área, um empecilho especialmente para os pequenos empresários e inventores independentes. 

O processo para requerer uma patente é bem simples. O primeiro passo é verificar se não há algum produto igual no mercado. Depois, preparar a documentação técnica, que explica as funcionalidades e o design de cada invenção. Os documentos devem estar de acordo com as normas do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) –órgão responsável pelo registro de  patentes no Brasil. Se a patente for outorgada, ela dura 20 anos. 

“Recebemos por dia cinco novos inventores, em média, à procura de orientação”, explica Daniela, apontando as áreas de sustentabilidade, construção civil e medicina como as que concentram o maior número de novos projetos, além de produtos que oferecem praticidade. A Região Sudeste é a que tem mais inventores, especialmente de São Paulo e do Rio de Janeiro. 

Êxitos 

A empresária Mônica Nardi Pisano, dona de uma loja de materiais de construção em São Paulo, cansou de ouvir reclamações de clientes em relação aos estragos provocados pela pressão da água nas torneiras de casa. “Tive um cliente que teve o apartamento inundado, e também o de vizinhos, por esse motivo”, lembra. Foi quando ela teve a ideia de criar um engate para registros que controla o fluxo de água, interrompendo-o total ou parcialmente. O processo de desenvolvimento do produto durou três anos. “Fizemos muitos testes antes do lançamento no mercado”, afirma. Agora, a peça é fabricada em grande escala e se tornou exemplo de criatividade a partir da necessidade. 

Também teve final feliz a criação da barra para exercícios físicos desenvolvida pelo engenheiro mecânico gaúcho Ricardo Pongiluppi. Fixada na porta, ela apresenta sistema diferente das então encontradas no mercado, possibilitando maior variação de  exercícios. A ideia nasceu de uma necessidade pessoal: “Eu tinha uma barra que estragava o marco da porta, escorregava, pois não fixava direito, além de limitar diversos exercícios e ser de difícil fixação e remoção”, lembra. 

Para chegar ao produto patenteado, Ricardo pesquisou modelos na internet e encontrou peças em sites americanos que foram adaptadas. Elaborou o desenho, fez os cálculos necessários e, em apenas um mês, finalizou a primeira barra. “Minha maior dificuldade foi criar um  design multifuncional e de fácil produção”, ressalta. Ele não encontrou uma grande empresa que investisse no produto, mas ainda assim comercializa o invento, já que a produção é simples, com peças encomendadas de acordo com as especificidades do cliente. São vendidas cinco barras por mês, em média, pela internet. “As pessoas que compram sempre se surpreendem com a sua qualidade e  resistência. Recebo muitos elogios”, orgulha-se Ricardo, que, ainda estudante, tentou dar vida a um outro projeto: o de construção de rampas de acesso para veículos que transformam o movimento do carro em energia elétrica. Foram muitas as palavras desmotivadoras, de professores e colegas. “Meu maior problema foi convencer os professores de que era possível fazer algo diferente. Percebi que existe muita resistência quando alguém quer mudar um paradigma”, afirma.

Dificuldades

“Já bati em várias portas, meu produto é genial, quem usou adorou, mas é muito difícil colocá-lo no mercado”, afirma o paulista Maurício Figueiredo sobre a falta de interesse  das empresas em investir na sua invenção – um pregador de plástico usado para pendurar tênis e sapatos no varal, depois de lavados, que diminui o acúmulo de água no interior do calçado. 

Maurício enfrentava dificuldades sempre que precisava lavar e secar no varal uma bota pesada. Ele tentava deixá-la inclinada, mas o tempo todo era preciso retirar a água que ficava empoçada no fundo do isolado. “Foi aí que tive a ideia de um dispositivo que deixa a bota com o solado para cima e aí nasceu o prendedor para tênis”, diverte-se. Mas o caminho entre a ideia e o produto final não foi fácil. Até ver o invento pronto foram cerca de sete anos, entre pesquisas de material, de formato e de execução. “Fiquei noites sem dormir pensando na forma certa de deixar o produto de acordo com a necessidade”, diz o inventor. 

O paulista Carlos Ramos passou oito anos realizando pesquisas e muitos testes malsucedidos até chegar à versão final de um higienizador de capacetes, que funciona eliminando fungos, ácaros e bactérias da espuma que reveste o equipamento de segurança. O capacete é inserido em uma cabine e higienizado com um bactericida liberado, em forma de fumaça, por meio de ar comprimido. O processo de limpeza dura 20 minutos. 

Carlos acredita que, além de um investidor, falta ao negócio maior conscientização dos usuários para os problemas causados pela sujeira no capacete. “O capacete protege, mas também pode matar por alguma bactéria fatal que por ventura fique alojada nele”, explica. A trajetória de Maurício e Carlos em busca de um lugar ao sol nesse mundo das boas ideias deixa uma lição: para quem quer se tornar  um inventor, a perseverança é qualidade imprescindível. 

Ah! Lembra-se da xícara de porcelana, a revista e o telefone do início deste texto? Pois bem, a invenção da porcelana é atribuída aos chineses e ela existe há mais tempo que possamos imaginar. A revista está em nossas mãos porque, na primeira metade de 1450, o alemão Johannes Gutenberg inventou a prensa mecânica (até então os livros eram copiados à mão), dando origem à tipografia. Muitos acreditam que o inventor do telefone é o escocês Graham Bell, mas, em 2002, o Congresso americano reconheceu que a paternidade desse item indispensável nos dias atuais é do italiano Antonio Meucci, colocando fim num impasse que durava décadas.



[matéria publicada na Revista MRV, julho/agosto de 2003. você pode ver o pdf da edição clicando aqui.]

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